segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

*O CORPO
(Joésio Menezes)

Sábado, dez horas da manhã...
O corpo de um jovem jazia estendido no asfalto quente. Fora atropelado por um carro em alta velocidade cujo condutor fugiu sem prestar socorro.
Os bombeiros, que haviam chegado ao local cerca de vinte minutos após o chamado, isolaram a área e cobriram com um pequeno lençol branco o corpo ensanguentado do rapaz.
A poucos metros dali, o pé direito de um tênis de marca que, com o impacto do atropelamento, saiu do pé da vítima.
Curiosos aglomeravam-se. Alguns querendo ver o corpo; outros tentando reconhecê-lo.
As Polícias Rodoviária e Militar também chegam ao local e a primeira providência tomada é desviar o trânsito a fim de evitar outros acidentes.
Chegam os peritos... Medem daqui, calculam dali, analisam de lá e anotam tudo numa pequena prancheta. A essa altura, os bombeiros já haviam identificado o corpo: Renato da Silva Filho, dezoito anos, estudante de Antropologia, filho de Renato da Silva e de Maria Isolda da Silva, residente no Condomínio Canaã, bairro nobre da cidade.
Poucas horas mais tarde, o corpo é levado para o Instituto Médico Legal.
Chega, então, o momento de dar a notícia aos familiares. Mas quem seria o “mensageiro da morte”?
A viatura do Corpo de Bombeiros pára em frente a uma casa de dois pavimentos. O condutor do carro desce e toca a campainha da casa dos “Silva”. Um homem com um pequeno curativo na testa e ataduras no punho direito abre o portão.
- Pois não!...
- O senhor Renato da Silva, por favor!
- Sou eu mesmo!... Em que posso ser útil?
- Boa tarde, senhor! Sou o sargento Ignácio, do Corpo de Bombeiros.
- Pois não, sargento! O que o traz até aqui?
- Hoje, por volta das oito horas da manhã, houve um atropelamento na estrada que dá para o centro da cidade.
- Mas... que ligação tenho eu com esse atropelamento?
- A vítima, senhor!
- Por quê?... Quem é a vítima?
- Seu filho...Renato da Silva Filho.
- Meu filho?... Não, não pode ser!...
- Desculpe-me a frieza, senhor, mas é ele mesmo. Eis os seus documentos.
O senhor Renato estende a mão trêmula e recebe os documentos. Confere-os. De fato, eram do seu filho. Incrédulo, olha para o sargento e pergunta:
- Conseguiram ver o carro? Anotaram a placa? Prenderam o responsável?
- Não!... Mas segundo testemunhas era um carro importado, azul-safira, conversível. Não há muitos desses carros aqui na cidade. Mais cedo ou mais tarde o encontraremos.
- É o que espero! – responde secamente.
- Poderia acompanhar-me ao IML para o reconhecimento do corpo, senhor? - pergunta o sargento.
- Claro!... - responde Renato com a voz embargada - Espere-me só um pouco, vou trocar de roupa.
- Pois não, senhor, esteja à vontade. Ficarei aguardando-lhe na viatura.
Renato, cabisbaixo e com os olhos encharcados, entra em casa. Lentamente sobe os degraus da escada que leva ao andar de cima. Dirige-se ao seu quarto. Senta-se na cama. Desolado, fixa o olhar no nada por alguns segundos. Levanta-se bruscamente e dirige-se até a janela dos seus aposentos. Olha para o BMW conversível, azul-safira, estacionado na garagem dos fundos. O paralama dianteiro direito amassado; o parabrisa quebrado... Volta à cama. Senta-se. Abre a gaveta do criado. Pega um reluzente Taurus, calibre 38, cano longo. Confere se está carregado. Está!... Encosta-o no seu ouvido direito. Puxa o gatilho...
Um estampido seco ecoa pelos cômodos da luxuosa casa. As poucas pessoas que lá estavam correm para ver o que aconteceu... Minutos depois, entra no quarto o sargento Ignácio, que encontra todos estarrecidos com a cena: um corpo ensanguentado; olhos arregalados; o tronco sobre a cama, caído para o lado esquerdo; as pernas dependuradas; uma foto do filho na mão esquerda; o Taurus na outra.
O sargento Ignácio, enquanto liga do celular para a polícia, dirige-se à janela do quarto. Olha para a garagem dos fundos e vê o conversível azul-safira. Vira-se para onde está o corpo e, negativamente, sacode a cabeça.

*3º colocado no Concurso Literário Internacional “Prêmio Cidade de Conselheiro Lafaiete”, promovido pela Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayete-MG, em 2009.

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