terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O ENTERRO DAS HORAS: UM LAMENTO PLANALTINENSE
(Aurenice Vítor)
O que fazer para não lamentar o enterro das horas?
Horas felizes não enterramos, as guardamos num cantinho especial. Mas são poucas as que têm esse privilégio.
Enterramos as horas em filas esculturais; nas portas dos bancos que nos oferecem serviços lentos e estressantes; nas filas dos hospitais de atendimento precário e de funcionários mal informados ou mal formados mesmo, ou ainda de profissionais anti-profissionais, os quais utilizam equipamentos obsoletos. Mas as resgatamos quando encontramos nesses mesmos lugares pessoas que trabalham com amor e por amor!...
Enterramos as horas quando uma aluna assassina outra no pátio da escola sem motivo algum; quando um policial é flagrado espancando um torcedor no campo de futebol ou nos seus arredores, abusando do suposto poder que ele acredita ter. Enterramos as horas quando uma mãe vai ao IML para reconhecer o corpo do filho, que fora morto por traficantes, às vezes por estar devendo-lhes ou por se negar a ser um deles, ou ainda pelo simples fato de estar passando por onde eles costumam brincar de dar tiros sem direção.
Enterramos as horas quando uma cidade de história e costumes seculares, feito Planaltina, sai nas páginas dos jornais com o rótulo de “Cidade mais perigosa do DF”, quando na verdade deveria ser considerada a mãe de todos os candangos. Enterramos as horas quando presenciamos o desrespeito e a insensibilidade dos governantes para com esta cidade, considerada o berço da Cultura Cerratense, pois nada fazem para que aqui tenha um cinema, um teatro, uma escola de artes ou até mesmo uma Casa de Cultura, a fim de que nossos jovens sintam orgulho da sua cidade e não se vejam na obrigação de buscar lazer nas cidades vizinhas.
Enterramos as horas quando vemos pais esquecerem seus filhos diante de um computador digerindo informações que nem sempre têm capacidade ou maturidade para compreendê-las e assimilá-las sem nenhum tipo de consequência trágica.
Enterramos as horas quando presenciamos meninas de 12, 13 ou 14 anos prostituindo-se, na maioria das vezes sem que os pais tenham conhecimento, mas sob os olhares desatentos das autoridades.
Enterramos as horas quando não assumimos as nossas obrigações e responsabilidades para com aqueles que colocamos no mundo; quando os deixamos a mercê da vida e do destino.
Enterramos as horas quando depositamos nossos votos nas Urnas movidos pela ignorância, pois nunca sabemos quem são de verdade as pessoas em quem votamos; quando não cobramos o que nos é de direito; quando resolvemos descontar no próximo o mal que nos fizeram.
Enterramos as horas quando esquecemos que o bem maior que Deus nos deixou foi o Amor. Para muitos:
Amor mal recebido;
Amor mal reconhecido;
Amor mal distribuído;
Amor mal dividido;
Amor mal vivido;
Amor não sentido;
Amor não correspondido.
Enterramos as horas quando fechamos o nosso coração para a verdade; quando olhamos somente para o nosso umbigo e colocamos a responsabilidade de tudo nos ombros dos outros, responsabilidade por uma culpa que muitas vezes ou principalmente é só nossa.
Resgatamos as horas quando damos Cultura e criamos condições de vida para tanta gente vazia de saber; carente de Deus, de amor, de carinho, de um lar, de um irmão, de um pai, de uma mãe ou simplesmente de um prato de comida.
A culpa da falha humana é humana. A morte das horas são horas perdidas, são vidas vazias passadas em vão. E o resgate dessas horas somente será possível quando o povo aprender a viver como irmãos.

Um comentário:

xikomendes@yahoo.com.br disse...

PARABÉNS, AURENICE! Sou um grande admirador dos textos que você escreve. Esse é um dos melhores textos de que é autora.

Abraços,

XIKO MENDES