terça-feira, 12 de abril de 2011

OS FRADES
(Vanilson Reis)

Hoje, 31 de dezembro de 2009, último dia do ano.
Apesar de algumas tristezas ainda no meu peito, que me causam muita dor, estou muito bem, pois Jesus Cristo é um ser perfeito que não abandona o homem. Meus amigos frades não arredaram os pés do lugar em que sempre estiveram: em um rack cor de marfim. Os frades e eu não conversávamos há muito tempo, mas não há nada demais. Não estou escrevendo ultimamente porque a inspiração fugiu de mim como o passarinho que foge da arapuca quando descobre que ela o assusta. Juro que, até mesmo hoje, eu não estava preparado para conversa nenhuma. Ando muito casmurro, feito os personagens de Machado de Assis no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Eu sinto uma dor terrível no coração. Para dizer a pura verdade, não sei se é mal de tristeza ou ansiedade por saber o sentido próprio da morte. Penso assim: “por que será que as pessoas morrem tão de repente, da mesma forma que morrem centenas de pássaros”?!
Não quero, aqui, classificar a morte dos pássaros como um ato insignificante. O que pretendo, na realidade, é comparar a queda dos corpos numa planilha de valores reais. A Bíblia diz que todo homem é somente vaidade. Então, o homem existe porque é todo vaidade, e a vaidade desse homem é o princípio do prazer que ele sente pela vida. O pássaro não tem alma, não pensa, mas carrega consigo a certeza de que é livre para voar no universo da Terra. Não seria o caso de classificar o homem e o pássaro numa cadeia elementar de valores?! Porque, com isso, o próprio homem conscientizar-se-ia, definitivamente, de que o amor existe para sempre, entre os homens e os pássaros.
Neste ano, a minha roda de amigos ficou bem menor, principalmente com as mortes de Osmar Pereira de Oliveira - o popular Vovô -, Wilmar Calasans e Naninha. A partida dessas pessoas significou para mim um verdadeiro racha nessa roda que era tão confeitada de respeito e harmonia. A gente não se conforma com a morte, mesmo que seja patrimônio particular do vizinho. É uma coisa incrível com que o homem tem convivido desde o início do mundo. Quantos homens cultos existem nessa vida?! Todos já leram sobre a filosofia da morte!... Mas não aprenderam praticamente nada que pudesse calar o pranto e secar também as lágrimas do ser humano.
A verdade é que tudo não passa de um mistério na Terra. Eu mesmo, amigos frades, sou um homem fraco, totalmente podre, que vai à igreja, mas não aprendeu a maneira certa de rezar. Pena que a minha postura e a postura de vários homens não são o suficiente para convencer o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Jesus Cristo é o símbolo da fé que conduz o verdadeiro cônjuge da religião humana; a igreja não precisa ser linda e o padre ser estrangeiro, o importante é a cerimônia que há entre o Criador e a criatura.
Deus é uno e jamais uma legião de deuses na Terra e no Céu. Não acredito que o Céu seja melhor que a Terra; se eu acreditasse, amigos frades, não estaria aqui, reclamando da grande perda dos amigos que partiram na companhia de Deus. - Eu sou, como Pedro, meio santo e meio homem.

(Planaltina em Letras, Ano I, nº 3, p.4, jan./março-2011)

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