segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Prefácio à 4ª antologia da ACADEMIA PLANALTINENSE DE LETRAS

Prof. Xiko Mendes
(da Associação Nacional de Escritores – ANE).

Preservar a Cultura de um Povo é dignificar o progresso como símbolo do trabalho. Preservar a Cultura de um Povo é venerar o Passado como princípio da evolução humana, é velar pela Civilização do Mundo. A sociedade que se deixa corroer pelo vírus do ESQUECIMENTO é a sociedade dos ignorantes e apátridas indigentes, que desprezam e contestam as próprias RAÍZES CULTURAIS. O aniquilamento da História por meio do ESQUECIMENTO reproduz a barbárie suicida dos que reprovam o PASSADO e repelem o curso interminável dos acontecimentos humanos. Invocar a memória da Pátria por meio da voz de seus escritores e musas é tarefa primeira de qualquer instituição cultural comprometida com a elevação da consciência nacional. É uma pena que governantes não pensem assim.

O Estatuto da ACADEMIA PLANALTINENSE DE LETRAS – entidade criada em 1998 – é peremptório na defesa institucional de sua existência, pois ela “tem por finalidade o culto da Língua, da Literatura em suas diversas manifestações, o estudo e o conhecimento dos problemas sociais e científicos, a união e a congregação dos intelectuais de PLANALTINA, do Planalto Central e do Brasil, a difusão da cultura, das obras e dos conhecimentos gerais”. Portanto, é da responsabilidade da APL essa missão de não deixar “passar em branco” efeméride tão jubilosa quanto essa do SESQUICENTENÁRIO DE PLANALTINA.

Cidade antiga surgida do desencontro entre a desilusão de garimpeiros decadentes no século XVIII e o sonho de pecuaristas ávidos por ocuparem terras indígenas em espaços infinitos no século XIX, essa Planaltina de becos e vielas centenárias que guardam no silêncio bucólico de seus casarios um baú de histórias não escritas é também a cidade que hospedou pioneiros. Pioneiros como o MESTRE D’ARMAS que plantou essa cidade na beira do córrego que leva seu nome e suas águas correntes de esperança rio São Bartolomeu abaixo até o Atlântico; pioneiros como José Gomes Rabelo que tirou em 20/1 de 1811 um naco de sua fazenda, deu a São Sebastião para que ele salvasse o povo de uma epidemia e assim começasse a cidade goiana de Mestre d’Armas, hoje Planaltina – DF.

Tivemos, enfim, pioneiros os mais diversos que aqui chegaram transitando pela Estrada Real vinda da Bahia à Bolívia ou por outros caminhos da existência, parando com suas bagagens e fincando seu destino nesse território que se tornou um distrito de Luziânia-GO em 19/8 de 1859. Pioneiros que sonharam com a construção de Brasília, gente que veio para ajudar na promoção de seu desenvolvimento ou gente que em Planaltina nunca morou, mas se comprometeu com o seu progresso intelectual e moral.

Celebrar Planaltina aos 150 anos é celebrar sua cultura e seu passado, mas é também fazer do presente uma luta gloriosa contra o esquecimento. E nada melhor para fazer isso se não por meio da poesia invocando lembranças de pessoas, lugares e situações vivas na memória. A ACADEMIA PLANALTINENSE DE LETRAS sente-se profundamente orgulhosa dessa celebração ao reunir nessa 4ª Antologia OITO POETAS dispostos a cantarem a vida, distribuir flores, transformar silêncio em paz interior, falar do amor platônico ou libidinoso, decantar (em cada verso) as belezas registradas em nossa percepção como a água vai decantando as impurezas do mundo até mares nunca antes navegados na imaginação luso-camoniana.

Essa 4ª ANTOLOGIA vem se somar aos três volumes anteriores: “Momento Literário de Planaltina”, livro publicado em 1999 quando nossa cidade comemorava 140 anos; “Sonhos e Saudades na Abertura do 3º Milênio”, lançado em 2000, para celebrar a entrada do novo século, além de “Palavras, Sentimento e Paz”, obra alusiva aos 80 anos da Pedra Fundamental em 2002 – um dos marcos da importância de Planaltina na construção de Brasília.
Hoje, parte dos intelectuais planaltinenses se reúne novamente para honrar seus compromissos acadêmicos em prosa e verso. Convido o(a) leitor(a) a acompanhar o poeta ADENIR OLIVEIRA falando de saudade ao passar pelo rio Cocal, divagando-se na noite ao falar do desconhecido e da criança que habitam a realidade sobre mim, revelando sua fé no Divino Espírito Santo e despedindo-se antes do Fim do Mundo. Enquanto isso, AURENICE VITOR faz uma profunda reflexão sobre como o mundo moderno enterra as horas preciosas de nossa vida, como devemos ser alegres mesmo em momentos de dores lancinantes, como nos confortar após uma perda e reagir contra a indiferença. GERALDA VIEIRA invoca as mães como a melhor lembrança, celebrando Planaltina como cidade-mãe de Brasília e a Epopéia de JK como construtor da Nova Capital. Joésio Menezes reaparece com seus lindos versos líricos e alguns fesceninos, invocando sua “planaltinidade candangoiana nordestinizada” e tendo a poesia como sua metalinguagem única e primorosa.

Outra que nos dá o ar de sua graça na passarela das musas é a “Cora Coralina” dos becos candangos. Falo de KORA LOPES, poeta que escreve com leveza e sentimento, seja falando de uma Planaltina que morre nas horas ingratas de uma modernidade que mata a tradição, seja quando mergulha no eu lírico interior em seu âmago mais profundo para buscar entre nós o amor como bem supremo, a igualdade, a resignação, o sentimento de fuga, as migalhas da existência..., mostrando sempre a menina que não envelheceu dentro dela. Já MARCOS ALAGOAS nos fala de uma Nova Era com a valorização do meio ambiente, um mundo onde a poesia seja a nossa metalinguagem na comunicação com as estrelas, o tempo e a vida, e Brasília, a meta-síntese de todas as linguagens que queiram entender o Brasil moderno.VIVALDO SÓ, ao contrário do sobrenome, nunca está só. Destoando dos demais, utiliza-se de versos clássicos e de suas várias musas para eternizar a mulher como companheira inseparável de sua existência povoada de versos, amores, muitos amores num único amor: Terezinha!!!

Por fim, termino minha leitura dessa 4ª antologia da APL fechando sua última página com chave de ouro ao deleitar-me com os versos rebeldes de um convidado especial entre os outros sete poetas que me acompanharam nessa agradável Viagem Onírica por Planaltina aos 150 anos. Refiro-me ao poeta WILSON GONÇALVES, um homem que escuta o diálogo entre rosa e lagarta e extrai dele a metáfora do Brasil: um país desigual, com menores abandonados e muitos políticos corruptos. O nobre poeta, apesar de triste e saudoso, acredita no Brasil porque aqui “ainda podemos sentir o cheiro das matas e contemplar o céu cor de anil”. E também porque você, leitor, “bem mais alto irá voar”, levando esses versos em seu baú de saudades. E com a minha certeza de que esse livro de poema e prosa é o MELHOR PRESENTE para homens e mulheres sentimentais, seres viventes porém estranhos por que dotados de amor à poesia como outra forma de preservar a cultura de que tanto falamos no início desse prefácio. Que tenham boa leitura !!!

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