quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

PLANALTINA-DF (Reflexão sobre os 90 Anos da PEDRA FUNDAMENTAL em setembro de 2012).

Crítica à Razão Planaltinocêntrica

Prof. Xiko Mendes
(Historiador e membro da Academia Planaltinense de Letras).

Há mais de vinte anos convivo em Planaltina-DF com um discurso “planaltinocentrista”. Segundo seus diferentes enunciadores, essa cidade bicentenária cuja colonização inicial remonta às décadas de 1780/90, ou antes, é a Cidade-Mãe de Brasília. Mas o que isso significa? Nada! Pois isso nunca resultou, como contrapartida, em obras e projetos que preservassem de fato seu Passado e dinamizasse o desenvolvimento moderno da cidade. Esse discurso político é essencialmente etnocêntrico e segregacionista. E tal é sua estupidez pseudo-academicista que chega ao cúmulo de defender a “tese” de que Planaltina é quase o “centro do Mundo”, ou melhor, o centro fundante das tradições que antecedem a construção de Brasília.

Esse etnocentrismo sebastianista chegou ao absurdo de querer, sem base documental, inventar vínculos genealógicos que liguem a linhagem de famílias planaltinenses à Nobreza da Coroa Portuguesa e aos bandeirantes como Borba Gato. É um etnocentrismo repelente que se baseia em auto-glorificar uma suposta autoafirmação institucional de Planaltina. Mas não se sustenta na prática tendo em vista que hoje a cidade, com centenas de moradores, cuja maioria é imigrante e, por não descender de “berços nobres nativos”, também não se sente obrigada a seguir ou respeitar essa visão “tradicionalista”.

Esse discurso é dividido em duas vertentes: o Discurso Tradicionalista e o Discurso Anti-tradicionalista. Eles não são diferentes. Ambos se inspiram nessa paupérrima ideologia “autoafirmativista”, manipuladora dos Rituais Simbólicos de Planaltina. A verborragia “tradicionalista” pauta seu discurso na autoafirmação de que certas famílias nativas se acham quase donas da cidade e de todas as tradições construídas pelo Povo quando Planaltina era município de Goiás. Como a moderna historiografia defende, a Tradição é construção coletiva. E tem diferentes enunciadores e mediadores das manifestações culturais de que é o fio condutor simbólico. Por isso, não faz sentido sustentar o argumento de que tem famílias tradicionais e não-tradicionais; sendo as primeiras mais importantes e a quem se deve atribuir o privilégio de carregar na lapela o emblema das tradições planaltinenses. Essa auto-glorificação descabida resvala para o grotesco, pois ninguém mais, a não ser essa gente, concorda com a idéia de que esse Tradicionalismo ambíguo e atávico, deve prevalecer.

Aliás, esse discurso só prevaleceu quando parte dessa elite tradicionalista governava Planaltina. Hoje, esse Discurso perdeu por completo sua legitimação política. Exemplo disso é que o povo dessa cidade vem elegendo deputados planaltinenses sem origem nessa “Nobreza Tradicional”. Deslegitimado nas urnas, esse discurso político tenta se sustentar celebrando a Pedra Fundamental, o Museu, a Via-Sacra e a Festa do Divino como mediadores simbólicos desse tradicionalismo démodé quando na verdade esses “pontos de referência” da Identidade planaltinense, hoje, são patrimônio coletivo formador da Consciência Brasiliense e Nacional. É de todos e não de alguns.

Na mesma linha discursiva, há os enunciadores do Discurso Pós-tradicionalista para os quais a Tradição é indispensável para Planaltina-DF autoafirmar-se. Porém, esse discurso não faz a Crítica da Razão “Planaltinocêntrica”. Ao contrário: para eles, certas famílias tradicionais dotadas de consciência nativista “xenófoba” (não gosta das mudanças trazidas pelos imigrantes), não apenas se acham “donas de Planaltina”, como querem manipular, em todo o tempo, a cultura e a história dessa cidade. Erram tanto quanto os tradicionalistas. Criticar famílias tradicionais sem oferecer uma opção discursiva consistente é um grave equívoco dos anti-tradicionalistas. Famílias tradicionais também são partes da matriz formadora do “Povo Planaltinense”.

Estou cansado de ver Pedra Fundamental, Via Sacra e Museu de Planaltina como únicos instrumentos mediadores da tradição pré-candanga. Junto a esses elementos, que são substratos da Cultura “Candangoiana”, há Vale do Amanhecer, Águas Emendadas, PADF (com seus típicos costumes sulistas), entre outros elementos de mediação simbólica que vão além do mero discurso tradicionalista.
Por isso, propomos aqui o Discurso “Planaltinista”: aquele segundo o qual, antes de Brasília, havia o “Sertão Planaltino” (termo cunhado pelo historiador Luiz Ricardo Magalhães em recente tese de doutorado). Planaltinistas, ao nosso modo de ver, devem ser todos aqueles que, além de criticar a “Razão Planaltinocêntrica”, quer conciliar tradição e modernidade numa trama simbólica mais complexa e anti-excludente, que ao mesmo tempo que considera o Passado colonial e pré-candango de Planaltina e de toda a região do Planalto Central como indispensáveis à formação do território do DF, enxerga nesse entrecruzamento cultural com os imigrantes a síntese final do “Homo Cerratense” (termo cunhado pelo historiador Paulo Bertran). Paracatu-MG assim como as cidades goianas de Luziânia e Pirenópolis, em primeiro plano, bem como Formosa-GO e Planaltina-DF, em segundo plano, são cidades matrizes dessa Cultura “Planaltina” que precede a existência corpórea de Brasília. Digo isso porque Brasília está presente no discurso político das elites do Brasil desde José Bonifácio (em 1823).

Os planaltinistas devem pautar seu discurso político e acadêmico como pós-tradicionalista, anti-personalista, anti-positivista e anti-segregacionista. Mas não em bases unitárias ou preconceituosas. O Planalto Central, antes de institucionalizar o DF, era uma ampla unidade histórico-cultural que rompia os limites da cartografia oficial e dele fazia parte regiões de Goiás, Minas e Bahia, que, juntas, se irmanavam na mesma tradição de uma Cultura Caipira, típica do Brasil Central, forjada pelo encontro entre o pecuarista dos currais do São Francisco e o minerador do Centro-Oeste.

Para usar um conceito muito usado por historiadores culturais, o Planalto Central é uma fronteira cultural. É um caso típico de hidridismo cultural desde o Brasil-colônia. E Planaltina nunca foi uma ilha. Portanto, ela, sozinha, não é o centro geo-histórico do DF. E nada mais metafórico que as Águas Emendadas para simbolizar esse encontro que funde – frisamos de novo – a tradição e a modernidade sem os abomináveis manipuladores de rituais simbólicos dos tradicionalistas e anti-tradicionalistas. Planaltina é de todos nós! É do Brasil! E viva os 90 anos da Pedra Fundamental como marco zero da consciência caboclo-modernista tupiniquim!

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