terça-feira, 18 de dezembro de 2012

VOVÓ IAIÁ: ÚLTIMA REMANESCENTE DA PEDRA FUNDAMENTAL




por Adenir de Oliveira

“Maria,
Nome celestial
De mãe, irmã e filha.
Ave Maria.
Ave que sobrevoa o infinito
Cheia de amor e graça,
Maria”.

E Maria da Conceição de Sousa, carinhosamente conhecida por todos como Vovó Iaiá, sobrevoou no dia 27 de junho de 2012, com 105 anos (07/03/1907) de sabedoria, dedicação, amor e carinho. Foi a última sobrevivente que assistiu, in loco, em 1922, aos 15 anos de idade, ao lançamento da Pedra Fundamental, marco da futura capital do País.
Era uma pessoa simples, bem humorada, alegre... um gênio dos casos e da história de Planaltina, sua cidade natal, onde passou toda sua existência, lá naquela casa de esquina, na Praça São Sebastião (praça da igrejinha), Quadra 59, n° 153. Casarão que ela mesma mandou reformar, pois de lá nunca pensou em sair. Era uma “mulher parideira” (como disse a grande poetisa Cora Coralina em um de seus versos):. teve 10 filhos, seis dos quais com nível superior completo.
Amante das artes, da educação e da cultura de modo geral (a exemplo de Cora Coralina), fazia seus versos e trocadilhos, e gostava muito de cantar, principalmente em louvor ao Divino Espírito Santo, de quem era devota fervorosa e para quem dirigiu suas últimas palavras, por meio das quais pediu-Lhe que a permitisse ver o resplendor.
Os versos e rimas que escrevia e cantava enchiam uma antologia. Vejamos alguns deles:

“Maria rata, Maria rata,
Maria rata foi-se embora e foi chamando
E seu marido foi atrás engambelando
Maria rata, Maria rata,
Eu não te dei trono de ouro,
Mas te dei um anel de prata.
Maria rata, Maria rata
Foi-se embora e deixou-me engambelando
Eu fiquei do lado de fora, chorando, chorando.
Maria rata, Maria rata.
Assim também se expressou em verso:
Roda morena porque também quero rodar
O vestido da morena quebrou o ferro de engomar.
Todos querem a morena
Para namorar e casar.
Mas a morena não dá bola
Ela só pensa em dançar”.

Vovó Iaiá, na sua longa caminhada, serviu como referência para inúmeros escritores, poetas, cineastas, historiadores, estudantes de todos os níveis. Foi capa de revista, tema de filmes, vídeos e entrevistas. Todos que a conheciam, admiravam sua lucidez invejável e firmeza de conhecimento do que relatava, desde os primórdios da fundação de Planaltina até os acontecimentos atuais. Era uma ‘’ Diva’’ da história de Planaltina.
Contava ela sobre o lançamento da Pedra Fundamental: “quando falaram que colocariam aqui, em nossa cidade, a pedra onde seria construída a nova capital, foi um alvoroço. A cidade possuía poucos habitantes, mas todos queriam conhecer esta tal pedra vinda lá do Rio de Janeiro, mandada pelo Presidente da República. As pessoas importantes da cidade se mobilizaram para o grande acontecimento. Os coronéis da época, professores, religiosos, delegado, juiz... todo mundo queria ver a pedra. Inclusive o meu pai, que se chamava Coronel Joaquim Marcelino de Sousa, me levou com ele e com meu futuro sogro, Balduino Inácio de Oliveira, que foi o primeiro juiz da comarca. Viemos a cavalo, pois, naquela época, aqui não existia automóvel. Dias antes, meu pai mandou uma tropa da fazenda Paranoá, onde morávamos, para emprestar às pessoas que não possuíam transporte.
No dia 7 de setembro, ao romper da aurora, saiu a comitiva montada, pouco mais de 100 pessoas. A mulheres não passavam de 10, dentre elas, eu e minha irmã Ana Izabelm que ofereceu aos participantes do evento uma mesada de café com biscoitos típicos da região.Tudo levado no lombo dos animais, em “broacas” feitas de couro. Lá foi montada uma tenda de lona, pois o sol era muito quente. Chegado o grande momento, ao meio dia, a banda de música tocou o Hino Nacional, a Bandeira Brasileira foi hasteada e logo após foi removido um pano branco que envolvia a tão famosa Pedra. Qual foi o espanto de todos quando viram que não se tratava de uma Pedra verdadeira, e sim de um monumento feito de concreto pelas mãos do homem. Não chegou a ser uma decepção, mas foi espantoso. Cochichos, murmúrios e comentários envolveram todos. Mesmo assim, o momento foi saudado pelos coronéis com uma rajada de tiros de revólveres e uma salva de palmas por todos que ali se encontravam. Várias pessoas discursaram, inclusive meu sogro, que era uma pessoa ‘’letrada’’. Os homens que sabiam escrever assinaram o documento do lançamento da Pedra, as mulheres não, pois naquela época, mulher nem sequer votava!.... O calor era sufocante. As pessoas mais abastadas levaram seus ‘’cantis de água’’; outras, beberam água dos potes de barro levados, também, pela minha irmã Ana Izabel. Assim foi o lançamento da Pedra Fundamental”.
Estes fatos nunca foram relatados. Passaram despercebidos pelos poetas, escritores e historiadores descomprometidos com a verdade sobre a Pedra Fundamental, pois eles nunca buscavam a “verdade verdadeira”. Foram atrás, somente, da ‘’Historia’’ montada e arquitetada por pessoas que se interessaram em construir e relatar uma falsa verdade, contando as suas próprias “histórias”, a efeito do que aconteceu com a própria história de nosso País, desde a sua descoberta até os dias atuais.

(Planaltina em Letras, Ano III, nº 10, p.02, out/dez-2012)

Nenhum comentário: