quinta-feira, 4 de julho de 2013

POESIA DE XIKO MENDES, CADEIRA 6 DA APL.


Eles, os Torturadores da Consciência Local, Roubaram Formoso Dentro de Mim

 

(Esse é um Recado aos que baterão palmas na Minha Despedida).

Xiko Mendes

 

I – Viagem Apocalíptica a Formoso no ano 2028

 

Estamos em 2028!

Quanto tempo passou desde que nasci nesse lugar!

Há 65 anos somos município!

Estou velho, sexagenário e desiludido.

Aqueles que me seduziram com esperança,

Todos me traíram e destruíram meus sonhos.

E nada mudou. Nada mesmo!

Tudo continua como antes.

Minha cidade percorrendo caminhos errantes

Sem que o Progresso triunfe sobre a Hipocrisia ambulante.

Estamos em 2028: são 250 anos de história

Desde que D. Luiz da Cunha Menezes,

Um governador de Goiás hospedou-se

Numa fazenda que mais tarde seria

Chamada de Formoso.

Foi ele, D. Luiz – o “Fanfarrão Minésio”,

O primeiro que testemunhou nossa origem em 1778;

E depois foi ridicularizado nas “Cartas Chilenas”

De um poeta inconfidente que fecundava revolução.

Mas o que mudou em Formoso, em dois séculos e meio?

O rio Piratinga morreu intoxicado.

Só sobrou do rio São Domingos as pedras lindas.

Restou tão somente o rio Carinhanha protegido

Dentro do Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

O jatobá centenário da Praça Felipe Tavares

Também se cansou de tanta hipocrisia e secou.

Formoso continua isolado, geograficamente.

Formoso está no meio do Mapa do Brasil,

Mas vive na “ilha” Bagominas,

Que não é Bahia nem Goiás nem Minas.

Está próximo distante dos centros mais civilizados,

Sem contato com a maioria dos municípios vizinhos.

Cadê os governantes que se elegeram

Nas eleições municipais de 2016, 2020 e 2024?

Onde estão eles?

Quem são esses hipócritas,

Que me seduziram dizendo que realizaria meus sonhos?

E depois de eleitos, sumiram?

Fui usado tantas e tantas vezes por candidatos assim,

Mas hoje, em 2028, velho e desiludido,

Eu posto-me na encruzilhada, ponho a mão no queixo

E me pergunto, com tristeza:

O que eles fizeram de nós, o Povo Formosense?

Mataram o futuro de nossas crianças!

Compraram votos dos desempregados!

Roubaram o dinheiro da Saúde!

Desviaram a verba do asfalto!

E ninguém reclama de nada.

Em Formoso há uma placa no Imaginário:

“Reclamar é crime!”.

Para o Povo de Formoso,

Tudo é normal, tudo é natural.

Essa é a sina maldita dessa cidade de nome bonito,

Mas com um povo resignado que adota o silêncio

Como resposta em sua omissão secular.

Formoso sempre foi assim – dizem eles.

Por que mudar agora?

E assim, de eleição em eleição,

Formoso vai morrendo aos poucos,

Sepultando as esperanças na curva incompleta,

Destruindo sonhos de quem ainda tem coragem de sonhar.

E você, o que está fazendo?

Será mais um que vai me chamar de crítico impiedoso?

É, meu amigo! É graças a você

Que Formoso chegou onde estamos, em 2028,

E nada, nada absolutamente,

Conseguiu em 250 anos modificar

Essa cidade de gente emudecida e cúmplice

Que aceita tudo, sem reclamar de nada.

E se você reclamar é logo chamado de doido, “cricri”...

Em Formoso é proibido pensar;

É proibido ter opinião própria;

Quem pensa e sonha, logo é visto como adversário do governo.

Formoso é prisioneiro da Teia da História.

E dentro dela vai tecendo a tragicomédia

Que somos nós: um povo que prefere sofrer

A lutar, ferozmente, contra o seu silêncio conivente,

Que permite 25 décadas de isolamento,

Que provoca o suicídio do sonho e da esperança.

Em Formoso a Roda Viva da História

Anda para trás e marcha, desgovernada, para o abismo.

Mas onde está o Futuro?

E para onde foi o Passado?

Formoso é silêncio!

Formoso é impotência grávida de (des)encantamento.

Formoso é esfinge: um enigma que se distancia do Passado

E foge do Futuro.

Para onde vamos?

 

II – Carta para Meus Netos Lerem no Centenário da Emancipação de Formoso em 2063

 

A vocês, filhos que herdam de Minas

O Espírito de Mineiridade moldado pela crença na liberdade,

Pelo orgulho de seu Passado, pela ética na República

E pelo respeito à vida e ao povo numa Pátria Comunitária,

Deixo meus sonhos como um legado e testemunho póstumos

Daquilo que não consegui ver e vivenciar em Formoso,

Terra que fecunda esperança, mas que há dois séculos

Espera Deus semear nela o desenvolvimento para todos.

Sonhei com um Formoso de Minas

Onde exercer o direito à Liberdade de Expressão

Não fosse mais motivo de censura prévia entre alguns conterrâneos.

Sonhei com um Formoso onde o câncer do analfabetismo

Não contaminasse mais nenhum Formosense;

E que a ignorância política não mais reinasse entre essa gente.

Sonhei com um Formoso onde não seria mais preciso

Levar pacientes para Brasília porque criamos uma boa rede hospitalar.

Sonhei com um Formoso onde os rios Piratinga,

Carinhanha, São Domingos e seus afluentes não morressem

Intoxicados pelo veneno que contamina(va) o subsolo desse município.

Sonhei que muitos de meus conterrâneos, em vez de fuxicarem

Sobre a vida do vizinho, se desse ao trabalho de transformar a si mesmo

Para melhor contribuir patrioticamente com o Povo Formosense.

Sonhei com um Formoso onde combater a corrupção e

Exigir honestidade dos governantes da nossa cidade

Não mais fosse visto como “pecado” nem quem combata

A ladroagem de dinheiro público nunca mais fosse apelidado de “cricri”.

Sonhei que várias empresas um dia se instalariam em Formoso

Para que todos os eleitores pudessem ter emprego,

Se tornassem livres e independentes para expressar sua OPINIÃO

E que nunca mais alguém ousaria comprar voto em troca

De pagamento de receita de remédio, promessa de emprego público,

Pagamento de contas de água e luz, carona na beira da estrada, etc.

Sonhei que Formoso teria asfalto ligando seu território com todos

Os municípios da Região do Marco Trijunção,

Nessa fronteira esquecida entre Bahia, Goiás e Minas Gerais.

Sonhei que vocês, meus netos e demais descendentes, nunca mais

Viveriam sob o reino do silêncio cúmplice e da conveniência oportunista

Porque alguns poderosos se julgam donos de Formoso e sua gente.

Sonhei...Sonhei...Sonhei...

Mas morri sem que o povo de minha terra reconhecesse em mim

Alguém que em toda a sua existência

Viveu todos os dias, todas as noites e todos os anos,

Irmanado com a Minoria que luta e acredita num Formoso

Onde Virtude e Nobreza de Caráter,

Onde Simplicidade e Humildade Franciscanas,

 Onde “Compromisso e Respeito pelo Povo”...,

Mais do que palavras que agradam ao meu senso (est)ético,

Seja de fato o slogan de todos nós, o Povo Formosense,

Gente que sonha ou se frustra na gangorra das urnas;

Gente que ama Formoso, indistintamente;

Gente que dá a vida em comunhão ecumênica

Por um Formoso democrático, justo, igualitário, transparente,

Decente e, sobretudo, onde Felicidade, Justiça e Utopia

Guiem, definitivamente, esse Povo na marcha silenciosa

Rumo ao Futuro; e que o Passado, palimpsesto do que fomos,

Seja sempre uma Advertência incômoda aos Patriotas que virão.

Mas onde está o Futuro?

E para onde foi o Passado?

Formoso é silêncio e penumbra!

Formoso é um ponto ofuscado

Na curva em direção ao Infinito.

Formoso perdeu-se na onda epicósmica do Caos;

E fixou-se no Oco do Universo.

Formoso é metaformose na encruzilhada;

É o Tudo; é o Nada.

É o devir nascituro, agonizado, que nunca veio a ser;

É o Não-Ser inerte e inerme, engasgado na garganta de Deus.

Formoso foi o último sonho de um patriota

Antes do meu Apocalipse Existencial.

Eles, os Torturadores da Consciência Local,

Roubaram Formoso dentro de mim.

Chorei quando eles mataram todos os sonhos

Que tive, desde criança, por um Formoso diferente e melhor.

Dou-me por vencido.

Desisti de sonhar por Formoso de Minas.

Deixe que o seu Povo, esse Ente Inominado,

Decida, sozinho, sobre o seu próprio Destino

E que sua História seja também o

Tribunal que julgará nos próximos séculos

Os erros e virtudes de uma cidade

Que emudece, solitariamente,

Diante do próprio sofrimento coletivo.

Adeus, Formoso!

Adeus, Torturadores da Consciência Local!

Que nesse Primeiro de Março de 2063

Quando Formoso comemora 100 anos de Emancipação,

Alguém se lembre de que meus livros sobre sua História,

Foi a contribuição que dei a um povo sofrido,

Mas que no Passado ergueu, altaneiro, a Bandeira

Do Sonho no projeto heroico de desbravamento do Sertão.

Eles, os nossos Antepassados, plantaram sonhos.

Eu, um visionário frustrado, naufraguei no Mar da Desesperança.

Deus! Deus! Oh Deus! “Onde estás que não responde”?

Deus: Por que Formoso está tão perto de Brasília

E tão longe do Futuro?

Por que Formoso está tão perto de Deus e

Tão longe do Céu?

É porque Formoso sofre da Síndrome de Tântalo.

Deus: Cuide de Formoso!!!

 

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